Notícia – Japão aperta cerco aos decasséguis

Publicado por admin em 17 de fevereiro de 2010

Fonte: O Globo

Data: 07/02/2010

TÓQUIO – Os personagens mudam, mas o enredo das histórias de brasileiros que vivem no Japão, os decasséguis, se repete. São descendentes de japoneses que deixaram o Brasil para buscar um lugar ao sol na segunda maior economia do mundo, com a intenção de ficar apenas dois ou três anos, juntar dinheiro e voltar para casa. Mas o plano inicial sofreu ajustes radicais: os decasséguis foram ficando, a família foi crescendo e o dinheiro raramente era suficiente para garantir uma vida melhor em terras brasileiras, mostra reportagem da correspondeste Cláudia Sarmento, publicada na edição desta segunda-feira do jornal o GLOBO. Depois de uma crise sem precedentes em 2009, o movimento migratório, que completa duas décadas este ano, enfrenta agora uma prova de fogo. O sonho de viver no Japão como operário bem remunerado acabou e possíveis mudanças na lei de imigração japonesa podem enterrar de vez as ilusões de quem ainda pensa em embarcar nessa aventura.

Desde outubro de 2008, quando começaram as demissões em massa no Japão, voltaram ao Brasil 50 mil decasséguis. Em 20 anos, foi o maior número de retornos, e a comunidade brasileira despencou de 317 mil em 2008 para 270 mil em 2009. As remessas de dinheiro de pessoas físicas do Japão para o Brasil sofreram uma queda de 40,7% em apenas um ano, caindo de US$ 717,2 milhões em 2008 para US$ 424,8 milhões no ano passado.

Poucos imigrantes (16.255) aceitaram a polêmica oferta financeira do governo japonês para que voltassem para casa: em troca de 300 mil ienes (cerca de US$ 3 mil) por trabalhador e 200 mil ienes por dependente (US$ 2 mil), os brasileiros perdem direito ao visto de entrada pelos próximos três anos. O chamado auxílio-retorno termina em março e, quem está decidido a ficar, terá que se adaptar a uma nova realidade. O desemprego é alto (5,1%), salários foram reduzidos e, enquanto a China espera crescer mais de 8% em 2010, o Japão deve registrar um crescimento de 1,7%, segundo o FMI.

- Temos que repensar nossa vida no Japão, que nunca foi um lugar fácil, mas agora está pior. Fazemos o trabalho sujo, pesado e perigoso e, mesmo assim, os salários caíram. Quem quiser continuar aqui, precisa aprender a falar japonês para conseguir colocações melhores – afirma Francisco Freitas, segundo secretário da NNBJ, entidade que agrega várias associações de brasileiros no Japão.

A questão da língua é fundamental. A maioria dos decasséguis não fala japonês e só desempenha trabalhos mecânicos. Apesar dos traços orientais, vivem isolados da sociedade e, como têm a ilusão de que estão de passagem, resistem em colocar os filhos nas escolas públicas japonesas. As crianças são matriculadas em colégios brasileiros, caros e, em geral, com baixa qualidade de ensino. Com a crise, vários decasséguis tiraram os filhos da escola e dezenas de estabelecimentos fecharam. O resultado se vê em lugares como a Paróquia São Francisco, em Hamamatsu, que atende 50 crianças brasileiras, dos 6 aos 16 anos. Elas não estudavam e mal tinham o que comer.

Projeto de lei quer barrar trabalhadores sem qualificação

Um projeto de lei que deverá ir à votação em março prevê a revisão da lei de imigração japonesa. O governo quer limitar a entrada de mão-de-obra não qualificada, o que afetaria diretamente os brasileiros. Em 1990, o Japão crescia em ritmo acelerado e faltavam profissionais, o que levou o país a liberar o visto de trabalho para os descendentes até a terceira geração (sanseis). Em 2005, o número de decasséguis atingiu o ápice: 330 mil. Agora, o Japão quer mais qualidade e menos quantidade, defendendo no projeto de lei a entrada de trabalhadores com boa formação acadêmica, como pesquisadores.

Os descendentes não seriam barrados, mas o projeto estabelece condições para que consigam visto: domínio da língua, autossuficiência (garantias de que podem pagar um seguro-saúde, por exemplo) e a comprovação da matrícula dos filhos em escolas. Não se sabe quais as chances de o projeto virar lei, mas os envolvidos na discussão admitem que seria uma mudança radical na política migratória.

Thiago Kazuto tem 26 anos e chegou ao Japão com 14. Nunca terminou o 2 grau. Trabalhou como operário e agora vive do seguro-desemprego. Ele diz que vai voltar ao Brasil, mas não quer o auxílio-retorno.

- Não abro mão do meu visto e tenho meu orgulho – afirma.

UPDATE (18/02/20140): Para informações atualizadas da situação recomendamos visitas o blog Pequenas Cousas.

Para ter conhecimento do documento do Projeto de Lei – em japonês –  clique aqui.


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2 Comentários sobre “Notícia – Japão aperta cerco aos decasséguis”

  1. Pequenas CousasNo Gravatar Diz:

    Apenas uma correção. Francisco Freitas, não é secretário geral da NNBJ, cargo máximo dessa entidade.
    Os blogs são mais ágeis do que a grande imprensa, o projeto de lei da reforma de imigração já foi comentado em detalhes, inclusive com números nesse post do meu blog dedicado a problema dos decásseguis http://www.pequenascousas.com/2010/01/mudancas-na-lei-de-imigralcao-do-japao.html

  2. Olá “Pequenas Cousas”.
    Nós da Visto Brasil agradeçemos pela sua contribuição.
    E já atualizamos o post com as informações corrigidas.

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